Como preservar um legado sem deixar de acompanhar um mercado em transformação? Essa foi uma das questões que atravessaram a mesa “Gerações de editores – tradição e inovação nas famílias editoriais”, realizada nesta sexta-feira, 25 de setembro, na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu Rafaella Machado, executiva da Editora Record e da Galera Record, e Mariana Kaplan, diretora de Marketing da Editora Sextante, em uma conversa sobre sucessão familiar, inovação, relação com os leitores e futuro do setor.

A atividade marcou o segundo de quatro encontros promovidos em parceria pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela Fundação Biblioteca Nacional, dentro de uma programação que segue até novembro e propõe diferentes olhares sobre o universo do livro.
Ao compartilhar sua trajetória, Mariana Kaplan contou que construiu boa parte de sua experiência profissional fora da Sextante antes de ingressar de forma definitiva na empresa da família. Formada em Engenharia, trabalhou em companhias como Coca-Cola e Amazon, além de fazer MBA em Barcelona. Em 2023, retornou à editora para assumir a liderança da área de Marketing.
Essa passagem por grandes empresas, segundo Mariana, trouxe referências importantes para pensar processos, planejamento, dados, marketing de performance e novas formas de gestão. Ao mesmo tempo, ela destacou o desafio de equilibrar essas práticas com o conhecimento acumulado por quem construiu uma longa trajetória dentro do mercado editorial.

Rafaella Machado lembrou que sua entrada no Grupo Editorial Record aconteceu ainda muito jovem e coincidiu com um momento decisivo para a comunicação das editoras: o crescimento da internet e das primeiras comunidades de leitores. Entre suas atividades iniciais estavam o contato com blogueiros e as respostas a leitores no Orkut, quando começava a surgir uma relação mais direta entre público e editora.
Essa transformação na forma de conversar com o leitor teve grande destaque no encontro. As duas participantes chamaram atenção para o papel das redes sociais, dos influenciadores e das comunidades literárias, que passaram a participar de maneira cada vez mais ativa da descoberta dos livros, da construção de tendências e até de decisões editoriais.
“A gente passou de fazer livro para o leitor para fazer livro com esse leitor”, resumiu Rafaella, ao abordar a importância de incorporar as comunidades à construção de projetos editoriais.
A conversa mostrou também como as editoras vêm ampliando suas funções. Além de publicar livros, elas assumem cada vez mais o papel de articuladoras entre autores, leitores, livreiros, influenciadores, agentes e profissionais ligados às diferentes etapas de criação e circulação das obras.

Mariana citou mudanças implementadas na Sextante, como o fortalecimento da atuação com influenciadores, do marketing digital e da construção de marca. Também falou sobre a busca por uma relação mais direta com os consumidores e pela abertura de novos canais de venda. Rafaella apresentou experiências da Galera Record voltadas à criação de comunidades, ações presenciais e iniciativas que aproximam os leitores dos bastidores da produção editorial.
Ao projetar os próximos anos, as participantes apontaram movimentos que já começam a redesenhar o mercado: o avanço dos audiolivros, a valorização do livro físico como objeto de desejo, o crescimento das edições especiais, a presença de formatos interativos e o fortalecimento de autores brasileiros.
A inteligência artificial também apareceu entre os temas do debate. Na avaliação das convidadas, a tecnologia pode ser uma importante aliada em processos, planejamento, análise de dados e identificação de tendências, embora a criação de histórias e a experiência da leitura permaneçam profundamente ligadas à dimensão humana.

Rafaella observou ainda que, em um cotidiano cada vez mais atravessado por telas e algoritmos, a leitura pode ganhar força como exercício de imaginação, repertório e empatia. Mariana destacou, por sua vez, a capacidade do livro de se adaptar a novos formatos e chegar a diferentes públicos sem perder sua relevância.
O debate mostrou, assim, que tradição e inovação podem caminhar juntas. A experiência construída pelas famílias editoriais não precisa ser substituída para que novas práticas, linguagens, tecnologias e formas de relacionamento sejam incorporadas.
Entre memórias, desafios de gestão e perspectivas para o futuro, Rafaella e Mariana também reforçaram a importância da literatura brasileira e do papel das editoras na circulação dessas histórias dentro e fora do país. A mesa apontou para um mercado que se renova justamente ao combinar legado, abertura ao novo e uma relação cada vez mais próxima com seus leitores.