Notícias

Categorias:

IA e o futuro do livro: especialistas debatem inovação, direitos autorais e os desafios do mercado editorial

A inteligência artificial pode ampliar a produtividade, criar novos modelos de negócio e facilitar o acesso dos leitores aos livros, mas seu avanço exige regulamentação, transparência e respeito aos direitos autorais. Essas foram algumas das principais reflexões da mesa “IA e o futuro do livro: desafios e caminhos para o mercado editorial”, promovida pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), nesta sexta-feira (24), durante a programação da Estante Virtual na FLIP.

O encontro reuniu Dante Cid, presidente do SNEL; André Palme, executivo com atuação nos mercados editorial e de tecnologia; e Bruno Mendes, especialista em inovação e fundador da plataforma Publitik. A mediação foi conduzida pelo jornalista e escritor Ronaldo Pelli.

Ao abrir a conversa, André Palme defendeu uma visão otimista, mas sem ignorar as transformações estruturais provocadas pela tecnologia. Para ele, a IA deve ser compreendida como uma ferramenta capaz de assumir atividades burocráticas, otimizar processos e permitir novas formas de relacionamento com os consumidores.

“A inteligência artificial é uma ferramenta, como muitas outras. Ela depende do uso que fazemos dela. Não acredito que, pelo menos neste momento, tenha capacidade de substituir tudo o que é humano. Há características humanas que não são copiáveis”, afirmou.

Como exemplo, André citou o atendimento realizado pela influenciadora virtual Lu, do Magalu, por meio do WhatsApp. Segundo ele, a tecnologia permite que o consumidor faça perguntas em linguagem cotidiana e receba recomendações personalizadas, experiência que também pode ser aplicada à descoberta de livros e à formação de leitores.

Bruno Mendes destacou que o principal diferencial da IA está em sua capacidade de operar em grande escala e velocidade. Para ele, o debate não deve ser reduzido a uma oposição entre ameaça e salvação.

“Não é uma dualidade entre ser um risco ou a solução de todos os problemas. É uma ferramenta com uma capacidade de escala que nunca vimos. Essa velocidade é o que assusta, mas também é o que torna a tecnologia útil”, explicou.

O especialista apresentou ainda o Publitik, plataforma criada inicialmente para organizar e filtrar notícias do mercado editorial internacional. Com o apoio de inteligência artificial, o sistema reúne conteúdos de diversos países, atribui critérios de relevância, identifica tendências e produz um podcast diário a partir de informações previamente selecionadas.

Apesar das oportunidades, Dante Cid reforçou que os riscos não podem ser negligenciados, especialmente quando envolvem o uso de obras protegidas no treinamento de modelos de IA.

“A inteligência artificial não cria a partir do nada. Ela é treinada com uma enorme quantidade de produção humana. O grande risco para o setor cultural é que livros, textos, ilustrações e outras obras protegidas sejam utilizados sem licenciamento e sem qualquer remuneração aos titulares dos direitos”, alertou.

Segundo Dante, o SNEL tem atuado junto ao Congresso Nacional para defender uma legislação que reconheça a utilização de conteúdos protegidos no treinamento das plataformas e garanta transparência e remuneração aos criadores.

“Não podemos permitir que a criação cultural brasileira seja usada gratuitamente para treinar plataformas pertencentes a poucas grandes empresas, enquanto os autores e demais profissionais que produziram esse conteúdo ficam sem reconhecimento e sem remuneração”, acrescentou.

A discussão também abordou aplicações específicas da IA no mercado editorial, como revisão, tradução, produção de audiolivros, análise de conteúdos científicos e identificação de materiais fraudulentos. No segmento técnico-científico, Dante explicou que as editoras enfrentam um crescimento expressivo no envio de artigos falsos produzidos por sistemas generativos, tornando necessária a própria utilização da IA para detectar irregularidades.

Outro exemplo discutido foi a produção de audiolivros com vozes sintéticas. André Palme ressaltou que a tecnologia pode reduzir significativamente os custos e permitir que editoras transformem parte de seus catálogos em áudio, desde que haja autorização e respeito aos contratos e direitos envolvidos.

Os participantes também refletiram sobre a crescente concentração do mercado tecnológico em poucas empresas e os impactos desse domínio para a autonomia das organizações, a circulação de informações e a diversidade cultural. André e Dante defenderam mecanismos de regulação capazes de evitar monopólios e garantir maior equilíbrio, enquanto Bruno apresentou o universo do software de código aberto como alternativa para empresas que desejam reduzir sua dependência das grandes plataformas.

Para Bruno, além da legislação, é fundamental investir na formação crítica dos usuários.

“A regulação é importante, mas ela não se sustenta sem compreensão. As pessoas precisam entender como essas ferramentas funcionam, quais são seus limites e como utilizá-las de maneira consciente”, afirmou.

Ao longo da conversa, os debatedores convergiram na avaliação de que a indústria editorial continuará existindo e desempenhando um papel essencial, mesmo diante das rápidas mudanças tecnológicas. O livro, lembraram, atravessou diferentes revoluções culturais e midiáticas e continua oferecendo uma experiência singular de reflexão, concentração e conexão humana.

A principal conclusão da mesa foi que a inteligência artificial já faz parte da realidade do setor e pode contribuir para ampliar a eficiência, a inovação e o acesso aos conteúdos. Para que esses benefícios sejam alcançados, no entanto, será necessário combinar desenvolvimento tecnológico, valorização da criação humana, regulação responsável e defesa permanente dos direitos autorais.

Últimas Notícias
Associado do SNEL pode participar agora dos seguros saúde e odontológico
SNEL recebe presidentes das Frentes do Livro do Rio
Biblioteca Nacional e SNEL promovem debate sobre projetos que incentivam o livro e a leitura no Brasil
Mercado editorial mantém trajetória de crescimento pelo sétimo período consecutivo em 2026
Com novo programa, ABDR tem forte alta nas buscas por livros piratas
Mesa redonda na Biblioteca Nacional vai debater temas do mercado editorial
Ofertas de aniversário Dell
Edital de convocação da Assembleia Geral Extraordinária