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Inteligência Artificial e o mundo dos livros: oportunidades, desafios e a urgência da regulamentação

A inteligência artificial já faz parte do nosso cotidiano, mesmo quando não percebemos. Dos mecanismos de busca aos aplicativos de escrita e tradução, ela está presente em praticamente todas as áreas profissionais. Foi a partir dessa constatação que Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), conduziu a mesa “Inteligência Artificial: o que muda para o mundo dos livros”, durante a programação oficial da FLIP no Espaço Areal, mediada por Ronaldo Pelli.

Com formação em engenharia da computação e pesquisa em inteligência artificial desde o final da década de 1990, Dante trouxe uma reflexão que ultrapassa o mercado editorial e toca em questões éticas, econômicas e culturais relacionadas ao avanço da tecnologia.

“A inteligência artificial não é boa nem ruim por natureza. Assim como qualquer ferramenta criada pelo ser humano, tudo depende do uso que fazemos dela”, afirmou.

Ao longo da conversa, o presidente do SNEL relembrou que o receio diante de novas tecnologias não é novidade na história da humanidade. Citando Platão, que registrou o temor de que a escrita pudesse tornar as pessoas “preguiçosas” ao não precisarem mais memorizar conhecimentos, Dante destacou que todas as grandes transformações tecnológicas foram acompanhadas por desconfianças semelhantes.

No caso da inteligência artificial generativa, a grande mudança recente não está necessariamente na teoria, conhecida há décadas, mas na capacidade computacional disponível atualmente. Hoje, os sistemas conseguem processar volumes gigantescos de informações, permitindo que sejam treinados com praticamente todo o conhecimento humano registrado digitalmente.

“Ela não cria do nada. A inteligência artificial combina conteúdos produzidos por pessoas. Por isso, a qualidade das respostas está diretamente relacionada à qualidade dos materiais utilizados no seu treinamento.”

Direitos autorais e o mercado editorial

Um dos principais pontos abordados foi a relação entre inteligência artificial e propriedade intelectual. Dante alertou que os modelos disponíveis atualmente foram treinados utilizando livros, músicas, artigos, ilustrações e outras obras criadas por autores e protegidas por direitos autorais, muitas vezes sem qualquer remuneração aos seus criadores.

“Nenhuma inteligência artificial generativa de qualidade foi desenvolvida sem conteúdo de qualidade. E esse conteúdo tem autoria. São pessoas que vivem da produção intelectual e criativa.”

O debate ganha ainda mais relevância diante das discussões em andamento sobre a regulamentação da inteligência artificial no Congresso Nacional. Segundo Dante, o setor criativo brasileiro tem defendido que a legislação assegure mecanismos de remuneração pelo uso das obras utilizadas no treinamento dos sistemas de IA.

Além da questão autoral, ele chamou atenção para o discurso econômico frequentemente utilizado pelas grandes empresas de tecnologia em defesa da flexibilização das regras para instalação de data centers no país.

“Vende-se a ideia de que os data centers representam bilhões em investimentos para o Brasil. Mas a maior parte desse valor está nos equipamentos, que são produzidos fora do país. O que efetivamente fica aqui é o consumo de energia, água e poucos empregos gerados.”

O futuro dos livros na era da IA

Apesar dos desafios, a conversa também trouxe uma perspectiva equilibrada sobre o papel da inteligência artificial no mercado editorial. Para Dante, a tecnologia pode oferecer ganhos significativos em produtividade, acessibilidade e inovação, desde que seu desenvolvimento esteja alinhado a princípios éticos e ao respeito pelos criadores de conteúdo.

O debate reforçou que a inteligência artificial não deve ser encarada como uma ameaça inevitável ou uma solução milagrosa, mas como uma ferramenta cuja utilização precisa ser discutida coletivamente pela sociedade.

“O que está em jogo não é impedir o avanço tecnológico, mas garantir que ele aconteça de forma justa, sustentável e respeitando quem produz conhecimento e cultura.”

Em um espaço dedicado aos livros e à literatura, a mesa demonstrou que discutir inteligência artificial é, acima de tudo, discutir o futuro da criação humana e das políticas que definirão como convivemos com as tecnologias que nós mesmos desenvolvemos.

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